domingo, 16 de setembro de 2012

Augusto, o Conquistador - Final

Augusto olhava a tudo atônico. Demorou a perceber que estava em um quarto, pois as paredes, iluminadas, ofuscavam sua visão. Um teto abobadado exibia o sol do meio-dia, enfeitando o céu imponente. Estava cercado da luz de um dia abençoado. O único móvel ali era a cama, ricamente esculpida no mesmo material do resto do cômodo, bem como as portas, que localizou pelas maçanetas de ouro. Ele estava em um palácio cristalino.
Percebeu-se nu, mas ao pensar em se vestir, um dos lençóis que o envolvia pareceu tomar vida, transformando-se em um luxuoso traje real dourado.
Saiu do quarto, simplesmente sem conseguir formular qualquer pensamento. Deparou-se com um longo corredor, cujas paredes laterais eram igualmente a luminosidade de um cenário ardente aos olhos. Ao final, um velho anão, vestido com uma túnica dourada, curvou-se em reverência. Ele o aguardava com uma enorme taça, contendo um líquido da supracitada cor.
- Saudoso Príncipe. Teve um bom repouso?
O pequenino possuía um olhar bondoso e calmante, o que evitou uma enxurrada de perguntas por parte de Augusto.
- Tive sim.
- Banhe-se com luz líquida, meu senhor.
Augusto, um pouco hesitante, enfiou as mãos dentro da taça. O líquido, ao entrar em contato com sua pele, emergiu do recipiente, envolvendo todo o corpo do rapaz, de forma que este tornara-se um ser de luz. Por alguns instantes, não conseguia enxergar, mas logo tudo voltara ao normal, porém, ele sentia um vigor indescritível.
O pequeno ser agora o olhava com um misto de devoção e ansiedade.
- Quer me dizer algo? – perguntou Augusto.
- Deseja ficar onde está, querido Príncipe?
- Aonde eu deveria ir?
- Aonde quiser, mestre. Mas devo lembrá-lo de que o banquete será servido.
- Ah, sim, então vamos.
O ser adiantou-se, conduzindo Augusto a um amplo salão, com colunas douradas e a mesma luminosidade dos outros cômodos. Ali, encontravam-se cerca de milhares de seres em igual aparência à do anão: os mesmos traços faciais, a mesma altura, a mesma vestimenta. Eram todos idênticos. A população curvou-se à presença do príncipe.
“Não acredito que tudo isso é para mim! Mas onde diabos estou? Quem são eles?”
O primeiro anão, que encontrara o rapaz próximo a seus aposentos, anunciou:
- É com muita honra que recebemos o Príncipe da Luz para seu banquete.
- Viva o Príncipe da Luz – entoou a multidão em uníssono.
“Príncipe da Luz?”, repetiu Augusto em pensamento, olhando para mesa. Nela, estavam dispostas bandejas diversas, todas contendo o mesmo: luz dourada. “Que gosto deve ter isso?”
Sentou-se e ficou a divagar sobre tudo que via, mas foi interrompido pelo primeiro anão:
- Falta-lhe algo, magnânimo Regente?
- Sim, eu gostaria de saber em que dia estamos.
- Dia? Perdão, Sua Alteza, mas não compreendo.
- Dia! Quando o sol se põe e a noite chega, passam-se algumas horas e à meia-noite começa um novo dia! – Augusto explicava aquilo com certa irritação, mas logo arrependeu-se, ao notar que todos temiam e se assustavam com sua súbita alteração de humor.
- Não sabemos do que Vossa Alteza fala – respondeu submissamente o primeiro anão. – É alguma profecia?
- Profecia?
De repente, um leve tremor começou a invadir o palácio. Os anões prostraram-se no chão, gemendo, o que irritou mais ainda Augusto. Ao mesmo tempo, um som de corneta invadira o ambiente.
- O que está havendo aqui? Levantem-se! – ordenou o príncipe, furioso.
Sua ordem fora obedecida por todos, embora o semblante geral fosse de pânico.
- Que barulho é esse?
O primeiro anão apressou-se a responder:
- É alguém de fora, meu glorioso.
Em meio às luzes, surgira um homem, com roupas de viajante à moda clássica, em tom carmim. Não era anão, como os outros, tampouco velho. Muito pelo contrário, era jovem e atraente, com lindos cabelos ruivos caídos aos ombros. Fez uma reverência a Augusto, que apenas o fitava, notando então que o estranho tremor cessara.
- Caro Príncipe, sou o Mensageiro Vermelho, aquele que traz notícias do mundo de fora, do desconhecido por vós, do além das paredes de diamante.
- Ele é um mentiroso... – gritou uma voz entre a multidão.
- Um patife! – alguém completou.
- Silêncio! – determinou Augusto e em um instante, o silêncio tornara-se tão claro quanto o ambiente. – Diga-me, Mensageiro Vermelho, o que ocorre do lado de fora?
- A iminência do caos, Alteza.
- Caos? – perguntou o príncipe, quase indiferente.
- Sim, o caos.
- Pode me explicar melhor?
- O reino vizinho está agora sob o comando do dragão das trevas.
“Estou em um lugar onde o sol nunca se pôs, no meio desses seres esquisitos, e lá fora há um dragão espalhando o terror? Então dessa vez eu não apenas viajei no tempo... Não estou no mundo real. Pareço ter entrado em algum conto de fadas... Isso que é a loucura? Sim, hoje eu sei o que é ser louco...”
- Perdão, Alteza, mas parece que não me ouve – observou o mensageiro, fazendo Augusto retornar de seus pensamentos.
- Sim, você dizia?
- Que o Dragão apossou-se do Palácio da Noite Estrelada, mantendo lá o jovem Príncipe como refém. Os habitantes estão refugiados. O medo instaurou-se sobre a cabeça de todos nós. Nós sabemos que o surgimento dragão é o prenúncio do fim das estrelas e...
O mensageiro ainda dissera muitas coisas, mas a última palavra que Augusto ouvira foi refém.
“É ele. Só pode ser ele, de novo.”
- Quem é o Príncipe do Palácio da Noite Estrelada? – perguntou o jovem, ao notar que o mensageiro o aguardava em silêncio.
- Sua Alteza, o Príncipe Diego.
- Pois diga a todos os aflitos que eu, Augusto, o Príncipe da Luz, derrotarei o Dragão das Trevas, salvarei o Príncipe Diego e trarei a paz novamente a todos que vivem sob a Noite Estrelada – declamou excitadíssimo Augusto, à vista da possibilidade de, não apenas estar novamente com Diego, mas de tornar-se um herói, ainda que não fizesse ideia de como enfrentaria e derrotaria um dragão.
- Mestre, ele é louco, fala de um mundo que não existe – cochichou–lhe o primeiro anão.
- Você não sabe o que diz, anão.
- Mas como viveremos sem nosso Príncipe?
- Eu voltarei, com o Príncipe Diego são e salvo. E quando eu voltar... – Augusto parou por um instante, para refletir sobre o quão absurdo era o que estava dizendo, mas não chegou a conclusão alguma. – E quando eu voltar, eu e o outro príncipe governaremos juntos o lado de fora e o lado de dentro, e os dias passarão a ser alternados pelas noites.
Ao terminar a profecia, Augusto sentia-se não apenas como um príncipe, um herói. Havia se tornado um deus.
- Fico feliz em saber que posso contar com sua ajuda, Alteza – falou o Mensageiro Vermelho.
- Irei agora mesmo. Podes me guiar?
- Com certeza, caro Príncipe.
O mensageiro virou-se e caminhou em direção aonde aparecera. Os anões estavam atônitos, com o desespero estampado. Vosso líder os deixaria ali, partindo em busca de aventura.
O príncipe, sem mais nada dizer, seguiu o homem de vermelho, enquanto escutava lamentos e murmúrios de seus súditos. O mensageiro andava à frente e Augusto, a princípio, não conseguia enxergar aonde estava indo.
- É muito longe daqui? – perguntou o rapaz, fazendo com que o mensageiro parasse de caminhar e se voltasse ao príncipe. Pela primeira vez, Augusto pode prestar atenção no rosto do homem. Tinha olhos amarelados como de um felino e a expressão enigmática.
- Isso depende de você, Príncipe.
- Como assim?
- Sua Alteza é o Senhor da Luz...
O mensageiro virou-se novamente e prosseguiu sua caminhada, deixando Augusto atordoado com suas palavras.
“Depende de mim? Como? Eu, Senhor da Luz... O palácio... Se eu sou o Senhor da Luz... significa que eu fiz isso!”
- Mensageiro, pare!
- Pois não, Alteza.
- Há necessidade de andarmos?
O mensageiro sorriu.
- Parece que entendeu.
- Entendi... Eu acho.
- Luz é consciência, Príncipe. À medida em que abdicamos da consciência, a luz diminui.
- E mergulhamos no desconhecido?
- Você aprendeu rápido, Alteza.
- Mas como abdico da minha consciência? Como faço o palácio desaparecer?
- O que não se pode ter do desconhecido?
Augusto refletiu por um instante e arriscou:
- Não posso ter... controle.
- E o príncipe está disposto a, pela primeira vez, perder total controle do que o rodeia?
A pergunta atingiu Augusto como um golpe. De repente, deu-se conta de como sempre fora controlador.
- Não sei, Mensageiro... Mas é preciso, não?
- Tudo poderá lhe acontecer.
- Estou disposto.
- Então feche os olhos.
Augusto seguiu a ordem do mensageiro. Como em um passe de mágica, o piso frio e seco deu lugar a um solo úmido. Ele sentiu que a luminosidade sumira através de suas pálpebras. O vento surgira, cantando uma melodia de solidão. Do alto, um impetuoso trovão assustou o rapaz, fazendo com que ele abrisse os olhos.
O jovem estava coberto pela escuridão. Não chovia, mas nuvens irritadiças pareciam brigar no céu, despejando relâmpagos por todos os lados. Somente durante os clarões que se formavam sobre sua cabeça, ele conseguia enxergar o tenebroso vale, com árvores secas, casebres nitidamente abandonados e morcegos que voavam ao seu redor. Logo adiante, havia uma espada fincada no solo.
- Use se quiser – a voz do Mensageiro Vermelho ecoou em sua mente, mas Augusto não podia mais vê-lo.
Uma nova trovoada relevou ao rapaz o palácio de pedra e o dragão, que sobrevoava a construção.
“Lá está Diego.”
Augusto retirou a espada do solo e empunhou-a aos céus.
- Diego, eu vou te salvar! – berrou, heroicamente.
Correu em direção ao palácio, ainda guiado pelos relâmpagos. O gigantesco portão, de porta maciça, estava entreaberto.
“Parece que isso está abandonado...”
Mas o local estava iluminado por candelabros. Nada mais ali havia, além de uma escada circular.
- Diego!
Subiu correndo os degraus, erguendo a espada. Estava nervosíssimo, suando frio, temendo o confronto do dragão. Ao final da escada, encontrou-se ao meio de um corredor. À sua esquerda, podia ver uma sacada da construção, onde o dragão passeava. Na outra direção, um cômodo que emanava uma fraca luz prateada.
Atraído pela luz, ele seguiu à direita e ali estava Diego, vestido com roupas reais, na cor púrpura, desacordado sobre uma cama. A abóboda do quarto mostrava o céu estrelado, diferente do que o rapaz vira do lado de fora, iluminando a face do príncipe em repouso. Augusto contemplou a face angelical de seu garoto.
“Isso é como um conto de fadas. Eu devo beijá-lo, para que ele desperte.”
- Augusto...
Uma suave voz feminina surgiu do alto, na forma de uma estrela que despencara do céu, e agora flutuava sobre os dois.
- Quem... O que é você? – perguntou Augusto.
- Sou Astréia.
- Que máximo! Estou falando com uma estrela!
- Augusto, venha comigo...
- Para onde?
- Eu conheço seus desejos mais íntimos e você corre perigo. Eu vim dos céus para te ajudar.
- Eu preciso salvar o Diego e...
- Você precisa se salvar de si mesmo.
- Não fale bobagens! Há um dragão lá fora que afugentou toda a população e fez com que o Diego adormecesse.
- E você não quer perder a oportunidade de se tornar o herói...
- Eu sou o herói! É para isso que eu estou aqui!
- Aqui onde, Augusto?
O jovem, sem resposta, explodiu:
- Não sei! Não sei onde eu tô, como eu vim parar aqui!
- Guiado puramente pelo seu desejo.
- Isso não é verdade!
- Então deixe esse Diego adormecido e volte comigo.
Augusto lembrou-se do momento em que se desligara da realidade, durante o beijo dado no cinema. Sentiu um enorme vazio. Aquilo já não era o suficiente.
- Pois bem, se fui guiado pelo meu desejo, é aqui que quero ficar. Salvarei o Diego e reinarei. Não quero mais a vida medíocre de nadador. É pouco para mim.
- Como imaginei, Augusto... A escolha foi sua.
Astréia sumiu diante dos olhos do rapaz, mas o ambiente ainda era iluminado pelas demais estrelas. Ele olhou para Diego, aproximando seus lábios para beijá-lo. Porém, pensou: “Primeiro preciso matar o dragão. Essa é a ordem correta.”
- Diego, meu querido, aguente mais um pouco. Acabarei com aquela besta e voltarei aqui quando todo o perigo tiver cessado.
O Príncipe da Luz tocou o rosto do Príncipe da Noite Estrelada e sentiu sua pele quente.
“Ele está vivo. Não há perigo em deixá-lo aqui.”
Augusto correu pelo corredor, até chegar à sacada onde estava o Dragão. Ali, o céu permanecia trevoso e com nuvens furiosas.
- Ei, dragão maldito! Olha eu aqui! Eu vim acabar com você.
Suas pernas cambaleavam. Ele temia o confronto, mas estava ali, para concretizar seu ato heroico. Mas o Dragão, ao contrário do que ele imaginara, comportou-se de forma dócil. Ao constatar a presença do príncipe, a fera pousou delicadamente, chagando a fazer-lhe uma reverência com o girafal pescoço.
- Não faça isso, seu idiota! – berrou Augusto. – Nós temos que lutar!
Mas o Dragão permaneceu imóvel.
“Que bicho patife! Mas estou só aqui e esta batalha vai ecoar aos quatro cantos desse mundo do jeito que eu contar.”
O Príncipe da Luz ergueu sua espada e correu em direção ao dragão. Com apenas um golpe, perfurou-lhe o pescoço. Em seguida, acertou onde acreditava ser o coração do animal. O sangue que jorrava de suas feridas começou e pintar o céu, fazendo deste um lindo espetáculo estelar. Um pouco de sangue manchou também as vestes de Augusto, e a cada gota o rapaz tornava-se mais brilhante. Ele era um ser de luz. O Dragão dera seu último suspiro e submissamente, deixou que seu corpo caísse desfalecido.
Triunfante, o príncipe, brilhando como o sol voltou à sala onde Diego se encontrava.
“Meu querido, eu  matei o Dragão e agora te darei um beijo. Tenho certeza de que desta vez permanecerei aqui, pois este é meu lugar.”
Tocou os lábios do príncipe desacordado e pode mais uma vez sentir seu hálito doce. Agarrou-lhe com força, não querendo ser novamente transportado no especo e no tempo.
“Deu certo, eu continuo aqui”, pensou, contemplando o jovem Diego que após alguns segundos, abrira os olhos.
“Esses olhos... Meu querido, agora vamos ficar juntos.”
Diego olhou para Augusto, assustado, e sentou-se vagarosamente.
- Quem é você?
- Sou o Príncipe da Luz e salvei você, Príncipe da Noite Estrelada – respondeu Augusto heroicamente.
- Me salvou como e de quê? Eu estava apenas dormindo...
- Não, caro príncipe. Estavas sob o efeito de um poderoso feitiço. Mas eu te trouxe de volta à vida com um beijo.
Diego levou as mãos à boca, como quem tenta encontrar vestígios do beijo.
- Você me beijou? – perguntou o jovem, timidamente.
- Sim, como todo meu amor – respondeu Augusto, fazendo-lhe uma reverência. – E matei o dragão que te aprisionava.
- Dragão?
- Sim, aquele enorme dragão que dominara o castelo. Eu o matei.
- Tiamat! – clamou Diego em desespero, correndo em direção ao corredor e fazendo com que Augusto o seguisse, confuso.
O Príncipe da Noite Estrelada prostrou-se ante o corpo do animal, em total desespero.
- Tiamat! – vociferou ele, entre lágrimas.
- Não entendo... – confessou suavemente Augusto. – Por que choras pela morte dessa besta infernal?
Diego olhou-se com profundo ódio.
- Você matou meu dragão, seu maldito!
- Mas ele é seu dragão?
Diego avançou em direção ao Príncipe da Luz, revelando entre suas vestes um punhal prateado. E quando o Príncipe da Luz se deu conta, a arma já estava fincada em seu peito.
Sua última visão fora a do próprio sangue esparramado misturando-se ao do animal. Antes de morrer, escutou a voz triunfante e diabólica do Mensageiro Vermelho.
Que o dragão e Augusto descansem em paz.


segunda-feira, 25 de junho de 2012

Augusto, o Conquistador - Parte 3


Augusto observou seu traje. Vestia agora uma túnica escura, estilo medieval. Na cintura, trazia uma adaga embainhada.
“Aonde vim parar agora?”
Tentou se levantar e ao que se conscientizava do próprio corpo, percebeu que sua coxa esquerda doía muito. Olhou para a mesma e só então notou que sangrava. Estava ferido.
“Foi na luta com aquele animal”, o pensamento brotou-lhe, sem que ele reconhecesse sua natureza. “Que animal? O que estou pensando? Serei eu um caçador agora?”
A floresta era densa e sol pairava sobre sua cabeça, embora as copas das frondosas árvores teimassem em ocultá-lo.
“Preciso achar a saída desse mato, ou encontrar alguém.”
Augusto caminhou por horas. Teve a impressão de que caminhava em círculos, pois a paisagem lhe era frequentemente semelhante. Por vezes, avistava vultos de animais por entre as árvores. Sentia medo, seu corpo soava frio e a fome foi se tornando uma sensação irritante. Quando deu-se conta de que cruzava mais uma vez quatro salgueiros alinhados de forma quadricular, ali parou. Sentou-se ao pé de um deles e não mais suportando a angústia, chorou como criança.
“Não aguento mais esse lugar! Eu quero voltar para minha casa, em Curitiba, no ano de 2011! Quero uma piscina bem funda para nadar!”
Já começava a anoitecer, quando escutou passos. Ergueu a cabeça e uma figura caminhava rapidamente pela floresta. O ser não o notara, pois àquela altura, seu pranto já havia cessado e ele estava imóvel. Mas surpreendido pela visão, levantou-se bruscamente, fazendo com que o vulto, que ocultava-se em um manto com capuz, começasse a correr.
- Ei, espere! – gritou Augusto.
O encapuzado corria com destreza, como quem conhecia bem aquela floresta, deixando o rapaz em desvantagem. A pouca luminosidade do anoitecer também dificultava, mas a perseguição logo terminara. Augusto chegou a ver a figura encapuzada entrando rapidamente em um casebre de madeira escondido em meio às árvores. O garoto se aproximou e passou a bater na porta.
- Por favor, abra!
Não houve resposta.
- Eu estou perdido! Não posso ficar aqui! Não posso passar a noite aqui fora! Preciso de um abrigo!
- Vá embora! Ou então usarei de artes mágicas! – respondeu uma voz de dentro da casa. Augusto a reconheceu na hora.
- Diego, eu sei que é você! Sou eu, Augusto!
Houve um silêncio repentino. Até mesmo os sons naturais da floresta cessaram, como se Augusto tivesse perdido a audição. A sensação terminou quando a porta se abrira.
O lindo jovem, Diego, ali estava, ainda envolto em seu manto verde-escuro, mas agora sem o capuz.
- Augusto?
- Sim, você sabe quem sou?
- Entre – disse o rapaz, seriamente.
- Diego... – foi tudo que Augusto conseguiu repetir, quando adentrara o local. A casa era simples como do lado de fora, iluminada por uma lanterna a óleo que estava sobre a mesa.
- Sente-se, Augusto.
- Com licença.
- Há muito tempo esperava por você – revelou Diego meigamente.
- Esperava? Como?
- Desculpe-me por confundi-lo com um caçador de bruxos.
- Do que você está falando? Não estou entendendo nada!
Diego levou uma das mãos ao peito de Augusto, com os olhos fechados.
- Você está sob um efeito de um mal. Isso é... algum tipo de magia que eu ainda não sei desfazer. Como se caminhasse sempre em círculos. Não sabe de onde vem, tampouco para onde vai, pois está trancado.
- Trancado onde?
- Parte de sua alma está trancada, mas eu não sei onde.
- Todas essas coisas que você fala fazem sentido, mas eu não consigo compreender.
- Por Vênus, você está ferido! – assustou-se Diego, ao notar o sangue na coxa do rapaz. – Deixe-me ver.
Ele ajoelhou-se, segurando a lanterna.
- Essa ferida... parece chifrada de cervo. Você caça cervos?
- Não! Quer dizer, eu não me lembro... Eu sequer sei em que época estamos.
- Fala do tempo? – perguntou Diego enquanto se levantava.
- Sim. Que dia é hoje? E o mês? E o ano?
- Eu não sei, mas isso não importa para mim.
Augusto calou-se, apenas observando, com encanto, o rapaz que abria um frasco contendo um líquido branco brilhante.
- Eu prometo que não vai doer.
Ele pegou um pano e encharcou com o líquido. Começou a estancar o sangue da perna de Augusto, ao mesmo tempo em que limpava a ferida.
- Realmente, não está doendo... O que é isso?
- Hum, aqui tem um pouco de orvalho, pó de escamas de serpente, saliva de raposa, sêmen de urso...
Augusto sentiu náuseas, mas ao mesmo tempo gostava do suave toque do bruxo em sua coxa.
- Vai precisar trocar suas vestes, mas as minhas não servirão – continuou Diego.
Augusto pode sentir a ternura com que o rapaz lhe cuidava.
- Diego...
- Fale... – o garoto desviou a atenção do ferimento e encarou Augusto.
- Por que disse que estava me esperando?
- Ora, você não sabe?
- Eu deveria saber?
- Achei que sim, afinal, sabia meu nome. Achei que também havia recebido um sinal de Vênus...
- Vênus?
- A deusa... do amor.
A essa altura, Diego já havia largado o pano no chão barroso e parecia inebriado pelo olhar do jovem.
- Ah, sim...
- Achei que também conhecia as artes mágicas...
- Lógico que conheço! – mentiu Augusto, temendo desapontar o outro. – Estava brincando com você! Às vezes tenho um senso de humor sem limites. É lógico que também recebi o sinal... de nossa Vênus.
Diego, até então ajoelhado, levantou-se. Augusto fez o mesmo.
- Cuidado! É melhor você não fazer muito esforço.
- Eu estou bem. Seu composto parece bom. Pode me ensinar depois?
- Lógico! Mas você deve estar faminto!
- Calma. Eu preciso conversar com você.
- É verdade, precisamos conversar. Eu preciso saber como você me encontrou.
Augusto segurou as mãos de Diego e só então teve certeza de que o rapaz estava extremamente atordoado. Também não entendia o que estava acontecendo, mas tentava esconder-se atrás de seus conhecimentos de feiticeiro.
- Você mora sozinho aqui?
- Minha família está desaparecida... E não tenho esperanças de que voltem. Já recebi sinais de que...
A voz de Diego embargou sutilmente.
- Acha... Sente que eles estão mortos?
- Os caçadores de bruxos estão em toda parte... – Diego abaixou a cabeça, mas esta logo foi erguida pelo toque de Augusto.
- A vida é assim mesmo... Há coisas que não podemos controlar. É a vontade dos Deuses – arriscou Augusto. - Seus olhos brilham como duas estrelas. Não chore agora, por favor.
- Não vou chorar. Sinto muita falta deles, mas estou feliz porque agora você está aqui e vai me proteger. Mas de onde você vem, Augusto?
- Eu vou dizer tudo, mas antes quero que me conte qual sinal teve a meu respeito.
Diego corou.
- Isso é muito pessoal...
- Mas não pode haver nada tão pessoal que eu não possa saber – Augusto o seduzia com o tom de voz e aproximava cada vez mais o seu corpo.
- Bem, já que você quer saber... Fiz um sortilégio que aprendi com minha mãe.
- Como é o sortilégio? – perguntou Augusto, curiosíssimo.
- Foi no último verão. Primeiro você deve ofertar algumas flores ao pé de uma macieira, se banhar nas águas de um lago límpido, cantando à Vênus, vestir novas roupas e esperar até que um pássaro branco apareça. Eu fiquei ali algumas horas, mas Vênus foi generosa e apareceu como uma pomba branca. Então, eu soprei pó de canela sobre as águas do lago e fiz a saudação a Ela. Conforme a pomba tomou voo novamente, eu fui dominado por um sono repentino e adormeci às margens do lago. Foi exatamente como minha mãe disse que aconteceria, quando me ensinou. Eu despertei e...
- Espera... – interrompeu Augusto. - Mas pra que você fez esse sortilégio? - Diego lançou-lhe um olhar incrédulo. – Tudo bem, continue.
- Quando eu acordei, já havia anoitecido e a brisa suave soprava uma palavra aos meus ouvidos: “Augusto”. Na verdade, eu despertei com a voz de Vênus me dizendo seu nome.
Augusto não sabia o que dizer, tampouco o que pensar.
- Foi isso – concluiu Diego, encabulado.
- Lindo.
- O que disse?
- Você fica ainda mais lindo com toda essa magia. Você sempre me surpreende!
- Sempre? Fala como se me conhecesse há tempos!
- E não? Você acha que essa é a primeira vez que nos encontramos?
- Tem razão... Creio que não. Mas me conte agora do seu sinal!
- Vou contar, mas antes deixe-me fazer algo?
- Deixo.
Augusto aproximou-se ainda mais, e sussurrou:
“Já que Ela te fala dessa forma, acho que eu posso vir aqui ao pé do seu ouvido e dizer obrigado. Obrigado, Vênus! Graças à Senhora este lindo garoto me abriu a porta.”
Diego suspirava e Augusto aproveitou a proximidade para pegá-lo nos braços. Conduziu-o até a pequena cama que ali havia, deitando seu corpo pesado sobre o delicado rapaz. Beijaram-se magicamente, por alguns instantes. Os lábios de Diego eram como mel e sua pele cheirava a rosas. Mas em instantes, o corpo do menino evaporara. Augusto temeu abrir os olhos, mas a mudança de luminosidade o obrigara.
Estava ainda em uma cama, mas na de um verdadeiro príncipe.

segunda-feira, 28 de maio de 2012

Augusto, o Conquistador - Parte 2


“Eu enlouqueci... É isso”, pensava Augusto enquanto caminhava pela rua. Tudo era antigo, do vestuário das pessoas com quem cruzava (e o seu próprio), aos veículos que passavam.
“Cada carro desses vale uma fortuna hoje em dia... Hoje em dia? Mas o que eu estou dizendo, que dia é hoje?”
Não havia sinal de uma construção contemporânea. O sol se punha enquanto nuvens cinzentas invadiam o céu. Logo adiante, havia uma pequena praça, onde alguns homens conversavam.
- Por favor, eu estou com um problema de memória... – disse Augusto a um deles, atordoado. – O grupo lhe olhou curioso.
- Posso ajudar em alguma coisa, rapaz? – perguntou o homem.
- Sim... Que dia é hoje?
- Hoje é sábado, dia vinte e dois.
- Vinte e dois... de quê?
- Ora, de agosto!
Augusto olhou para cada um dos homens e fez a última pergunta:
- De que ano?
Todos se entreolharam, alguns preocupados, outros visivelmente sádicos.
- De 1942. Agora não me zombe e saia daqui.
Augusto afastou-se com as pernas bambas, sem saber exatamente em que direção seguir.
“Eu voltei no tempo! Como pode isso?”
Ele peregrinou por toda a cidade, observando tudo e a todos. A noite se instaurara sobre sua mente confusa e a escuridão marrom logo transformou-se em chuva. Uma forte chuva. Não encontrava mais ninguém pelas ruas. Augusto correu, mas não havia para onde fugir. Os estabelecimentos, além de fechados, não possuíam toldos. Procurou uma igreja, mas por ali não havia. Após muito caminhar debaixo da tempestade, viu-se novamente na praça de outrora. Sem qualquer outra opção, sentou-se em um dos bancos, ensopado, esperando que tudo aquilo terminasse de alguma forma.
Lembrou-se de sua família, de seus amigos, dos torneios e de Diego. Não sabia que tipo de emoção o garoto lhe causava naquele momento, pois até o homem do aeroporto lhe seria melhor do que tudo aquilo que acontecia.
Após cerca de meia hora ali sentado, já acostumado com a chuva, com a qual ele se tornara uno, um vulto se aproximou. Pelo que via de longe, tratava-se de um jovem rapaz, andando rapidamente com seu guarda-chuva. A cada passo que dava, Augusto tornava-se mais cético a respeito de sua visão, mas logo admirou-se. Conhecia aqueles lábios e nariz finos, o rosto delicado e angelical, embora pouco perceptíveis pelas luzes da praça. Por baixo do chapéu, notou que haviam cabelos encaracolados.
O rapaz manteve a cabeça voltada para frente ao passar por ele, sem parecer notar sua presença.
- Diego! – berrou Augusto fazendo com que o moço parasse e olhasse para trás. O rapaz ensopado levantou-se.
- Desculpe, eu conheço você? – perguntou o garoto com o guarda-chuva.
“Ele não se lembra de mim...” – É... Digamos que sim.
- Entendo, mas não tenho tempo para conversas. Preciso voltar para casa – Diego tentou desvencilhar-se de Augusto, aparentemente assustado com a abordagem.
- E vai me deixar aqui, debaixo dessa chuva? – Augusto lançou-lhe um olhar sofrido, estendendo os braços para que o outro notasse, de fato, sua situação. Percebeu que Diego demorou a observar seu corpo.
- Bem, creio que se enfiar debaixo do meu guarda-chuva agora não irá adiantar muito... Como se chama?
- Augusto.
- Augusto, para onde pretende ir?
- Eu não sei, acabei de chegar na cidade. – Augusto tomou o guarda-chuva da mão do garoto. – Deixe que eu levo o guarda-chuva... Sou mais alto.
Diego estava visivelmente vulnerável. Seu corpo amolecia com a proximidade de Augusto.
- De onde você vem, Augusto?
- Vamos por ali, sua casa é para lá, não?
- Mas não posso te levar para casa... Meus pais não permitiriam – disse Diego assim que começaram a caminhar.
- Calma, não disse por isso – respondeu Augusto, sorridente. – Apenas quero te acompanhar e depois procurar um lugar para dormir.
- Perto de minha casa há uma hospedaria. Lugar simples, se você não se importar... Mas, de onde você disse que vinha mesmo?
- De Curitiba.
Viraram a esquina e se depararam com uma rua escura, onde o vento começou a soprar forte.
- Curitiba... Espera! Se vem de tão longe, como me conhece? Como sabe meu nome? – Diego o olhava com desconfiança.
- Eu...
- Você?
- Eu não tenho uma resposta racional para suas perguntas.
Diego parou.
- Devolva-me o guarda-chuva. Você é maluco.
- Diego, por favor, não! Eu só tenho você aqui! – Augusto estava preocupado, mas exagerava no tom de desespero.
- Então explique-se!
- Não aqui. Vamos sentar em algum lugar e eu tentarei te explicar.
- Mas onde? Não posso levar um estranho em casa!
- Então vamos continuar caminhando até lá. Talvez a chuva pare ou encontremos um local.
Os dois continuaram caminhando.
“Que Diego é esse? Será o mesmo com quem conversava na internet e eu estou louco? Ou será que viajei no tempo e essa é a vida passada dele? De qualquer forma, enlouqueci.”
- Sei muitas coisas sobre você, Diego – arriscou Augusto.
- Sabe? Como o quê?
- Sei que você adora goiabada, sua cor preferida é branco...
Diego o encarou, sobressaltado.
- O que é isso? Uma brincadeira? Quem te falou essas coisas?
- Digamos que você me diria essas coisas um dia.
- Então você lê pensamentos?
Uma rajada de vento inesperada fez com que o guarda-chuva escapasse das mãos de Augusto.
- Vou pegá-lo!
Ele correu, mas o objeto fora levado pelos ares.
- Não consigo ver pra onde ele foi. Está muito escuro!
- Eu também não – disse Diego chegando até onde ele estava.
- Te peço desculpas.
- Imagine. Você é forte. Se fosse eu, já o teria deixado escapar muito antes.
Augusto sentiu desejo no tom de voz de Diego.
- Ah, nem sou tão forte assim.
- Lógico que é!
- Eu acho que sou normal, olha...
O rapaz começou a se despir, começando pelo chapéu, até sobrarem-lhe apenas as calças.
- O que você acha?
Diego tocou o peito de Augusto, delicadamente. Em seguida, segurou um de seus braços.
- Para mim, você é bastante forte. Mas é melhor se vestir...
- Essas roupas molhadas estavam me incomodando – largou as peças tiradas no chão. – Porque você não as tira também? Não há ninguém na rua, só nós dois.
- Não, isso é loucura...
- É melhor fingir que está tomando um bom banho frio do que continuar com essas roupas grudadas.
- Mas eu não sou forte como você.
- Deixe-me ver?
Augusto começou a desabotoar o paletó de Diego, que não resistira. Em seguida, tirou-lhe a camisa e o garoto terminou o serviço, desfazendo-se do próprio chapéu.
- Você tem um corpo lindo, digno de um efebo – comentou Augusto, enquanto acariciava as partes desnudas do moço.
- Augusto... – sussurrou Diego
- O que foi?
- Não sei... Tantas perguntas... Quem realmente é você? De onde realmente vem? Como me conhece? O que quer comigo?
- Venha aqui e me abrace, pra que a gente possa se esquentar.
A mínima distância que ainda havia entre os dois fora eliminada. Estavam com seus corpos frios e molhados unidos. Augusto então começou a responder:
- Eu sou Augusto, como te disse. Vim de muito longe... E te desejo... É desejo que vem de paixão violenta.
- Eu não entendo. Não entendo como me conhece.
- Eu também não entendo todas as coisas do mundo.
- Eu acho que estou ficando louco.
- Talvez nós dois estejamos... E os loucos podem fazer tudo!
- O que quer fazer?
Augusto aproximou os lábios, para beijá-lo, mas Diego virou o rosto.
- Não, isso é errado. Não devemos...
- Quem disse que é errado?
- Todos sabem que é errado.
- Ora, de onde eu venho não é errado. Não para todos.
- Não? Gostaria de conhecer Curitiba, se é como você diz...
- Você viria comigo? – Augusto exalava entusiasmo em sua fala.
- Mas o que vou dizer para meus pais?
- Não diga nada! Vamos fugir!
- Augusto, você me levaria mesmo embora daqui? Por favor, me salve desse lugar. Aqui ninguém entende esses meus... desejos.
- Eu estou aqui para te salvar.
- Então, você o herói que eu tanto pedi a Deus? É você!
“Sim, eu sou seu herói e vou te salvar em qualquer época e lugar do mundo, meu Di.”
Beijaram-se em meio à escuridão. A água da chuva misturava-se à saliva de ambos. O gosto da boca de Diego era o mesmo e Augusto sentia-se entorpecido. Mais uma vez, sua percepção caíra, de forma que a chuva parara de escorrer-lhe pelo corpo e o rapaz a quem beijava evaporara como fumaça. Por alguns instantes, não sentiu o chão, mas logo seu corpo estava seco e o cheiro de mato era evidente. Abriu os olhos e estava caído ao pé de uma árvore, em uma enorme e imponente floresta.

quarta-feira, 16 de maio de 2012

Augusto, o Conquistador - Parte 1


Eram 2 da manhã, mas a conversa estava longe de terminar. As luzes estavam apagadas e as únicas coisas que o iluminavam eram o luar e o monitor do computador, que tornava seu rosto delicadamente azulado.
A webcam estava ligada e por ela, Augusto, um lindo jovem curitibano, de vinte e dois anos, conversava com Diego, quem não era menos jeitoso e atraente. O primeiro, exibia 1,87 de perfeita simetria. Um corpo moldado pela natação, que ostentava ombros largos por cima dos braços fortes e um peitoral entalhado à mão pela natureza. Seu rosto transmitia uma harmonia apolínea. Os lábios e o nariz eram ricamente desenhados. Seus olhos, semelhantes à água da piscina onde nadava, eram realçados por cílios proeminentes, facilmente invejados por qualquer mulher. Os cabelos escuros, raspados à máquina dois, acrescentavam um ar marcial ao jovem.
O segundo era um anjo, de cabelos médios, cacheados, na cor castanha, mas que possuíam um brilho natural dourado. Os olhos, também azuis, refletiam o céu ensolarado. Os lábios e o nariz eram finos e delicados como de uma criança, embora ele já tivesse 18 anos. Diego não praticava esportes, mas tinha um corpo igualmente atraente, sendo elegantemente magro em 1,75m de altura.
Augusto e Diego estavam apaixonados, embora ainda não se conhecessem pessoalmente. Conversavam diversas vezes por dia ao telefone e ao final da noite tinham um encontro marcado na internet. Assim ocorria há um mês. Augusto ficava encantado com o jeito como Diego gesticulava, falava e sorria. E sentia que era recíproco. Ambos comportavam-se como dois bobos em frente ao monitor, mas assunto não faltava. Diego, levemente mais ajuizado, era quem geralmente recomendava que fossem dormir por causa do horário.
Naquela noite, contudo, Augusto estava dominado pela ansiedade. Sua passagem de avião estava ao lado do mouse pad. Pegaria um voo logo pela manhã e iria para São Paulo, cidade onde Diego nascera e morava.
- Não adianta, o sono não vem! – disse ele.
- É, eu acho que também não vou conseguir dormir, mas precisamos tentar. Não quero você cansadinho amanhã! – disse Diego meigamente.
- Tá certo, eu já entendi. Vamos dormir...
- Beijão, meu Guto.
- Beijão, meu Di.
Augusto deitou-se na cama, atordoado por pensamentos. Na verdade, estava morrendo de medo de tudo que acontecia. Nunca havia se apaixonado. Para ele, as pessoas sempre foram descartáveis. Era um conquistador. Gostava de envolver, de ir pelas bordas, de sentir-se intensamente desejado, mas geralmente perdia o interesse logo após o primeiro beijo. Então, o que fazia era manter o jogo de sedução até que pudesse levar o rapaz para a cama e usufruir um pouco de quem já se tornara um objeto. Sempre foi assim, mas agora, sentia-se de fato envolvido e temia que tudo acabasse quando se beijassem. Não queria que Diego sofresse, tampouco queria viajar para outro estado e descobrir que tudo que ele conseguia ser era um canalha.
Conquistar, para Augusto, era uma arte que lhe dava mais prazer do que qualquer outra coisa. Tentava sempre usufruir de todas as ferramentas que o ambiente, a situação e o alvo de sua conquista lhe forneciam. Não desperdiçava uma noite estrelada ou uma música que tocava. Tudo se tornava elemento de seu cortejo. E de fato, nunca houve alguém que resistisse. Sempre teve qualquer um que quisesse.
Quando chegou ao aeroporto, logo chamou atenção de um homem, o que não era incomum, pelo seu porte. Não se sentiu atraído, tampouco pensava em trair o sentimento que tinha por Diego, mas não conseguia resistir à oportunidade de seduzir. Ficou a encará-lo enquanto aguardava seu voo. O homem parecia se entusiasmar mais a cada momento. Ficou rodeando o local, até chegar próximo a Augusto.
- Oi... – disse o sujeito, disfarçadamente.
- Vaza – respondeu Augusto, rindo por dentro. O homem despistou em passos cambaleantes.
Aproveitando que ainda tinha um tempo, entrou em uma das lojas do aeroporto e comprou um ursinho de pelúcia para Diego.
“Acho que meu Di vai gostar desse. É a cara dele...”
O avião decolou com um Augusto demasiadamente tenso. Estava acostumado a voar, devido às diversas viagens que já fizera para competições e torneios, mas dessa vez, era o jovem Diego que o esperava no solo.
Mas assim que aterrissara, não avistou nenhum rosto familiar.
- Já cheguei, Di. Cadê você? – disse ele ao celular.
- Eu já estou te vendo – respondeu o garoto.
- Onde? Cadê?
- Olha pra trás.
Augusto virou-se e encontrou, a alguns metros de distância, seu anjo, sorrindo-lhe largamente. Apressou-se a seu encontro e deu-lhe um abraço forte. Pode sentir seu perfume suave, porém cítrico e a maciez de sua pele.
- Nem acredito que você tá aqui! – confessou Diego.
- Eu estou! E tô aqui só por você.
Diego corou com tal declaração.
- Você pensou aonde vamos hoje? – perguntou Augusto, enquanto caminhavam para fora do aeroporto.
- Eu queria ir ao cinema... O que você acha?
- Eu acho ótimo. Depois jantamos em algum lugar bacana.
- Sim, já até sei onde podemos jantar!
- Mas antes eu preciso deixar minha mala no hotel.
Augusto se hospedaria em um hotel simples, na região da Avenida Paulista.
- Você me espera aqui enquanto levo a bagagem para cima? – disse ele a Diego na entrada do estabelecimento. Percebeu que o sorriso natural do jovem diminuíra com o pedido.
- Tudo bem.
“Se eu levá-lo para o quarto agora, vamos acabar dando um beijo. É muito cedo para isso. Preciso de mais um tempinho ou botarei tudo a perder.”
Largou suas malas no quarto e rapidamente desceu.
- Viu só. Eu nem demorei!
- Então vamos ao cinema!
No caminho, trocaram poucas palavras. Augusto sentia-se um adolescente, lançando olhares apaixonados ao garoto.
- Para de me olhar assim! – brincou Diego.
- Então não vou olhar mais! – respondeu Augusto, entrando na brincadeira.
- Não... Não faz assim, seu bobo!
O cinema não era muito longe dali.
- Tem um drama inglês que eu queria ver, mas esqueci o nome agora. Você gosta desse gênero, né? – perguntou Diego quando já haviam chegado ao local.
- Provavelmente, mas vamos ler a sinopse.
Acabaram decidindo-se por um filme de terror americano.
“Filme de terror é a melhor pedida para um primeiro encontro”, pensou Augusto, maliciosamente.
Na fila, conversavam sobre os últimos filmes que cada um havia assistido ao cinema.
- Mas acho que nunca estive tão feliz indo a um simples cinema – confessou Augusto. Os olhos de Diego brilharam.
- Por quê? – perguntou ele, com falsa inocência.
- Porque eu nunca tive uma companhia tão linda, agradável e apaixonante - Augusto pegou nas mãos de Diego, que estavam frias e inseguras. – Você acredita em mim?
- Eu acredito. Mas é que parece perfeito demais para ser real.
- Eu vou fazer de tudo para que seja perfeito sempre.
Entraram na sala de mãos dadas e procuraram um lugar ao fundo, onde não houvesse pessoas próximas. O filme começou e a cada momento seus corpos estavam mais grudados.
“Será que devo beijá-lo agora? Com certeza ele está esperando minha iniciativa”, Augusto pensava a cada instante.
Em um dado momento do filme, Diego (e mais da metade das pessoas que ali estavam) assustou-se com uma aparição repentina, típica de histórias de terror. Encolheu o rosto nos braços de Augusto, que encantava-se com sua fragilidade.
- Calma, pode olhar agora, Di.
O garoto levantou a cabeça de forma que nunca seus lábios estiveram tão próximos aos de seu Guto.
“Eu preciso beijar você, Di. Vou acabar com essa tortura.”
Augusto avançou o corpo, tocando a boca de Diego. Sentiu o rapaz puxando seu corpo, como quem quer ser protegido, coberto ou até mesmo dominado. Esqueceu-se de que estava no cinema. De olhos fechados, teve a impressão de que se deitava sobre seu anjo. Sua percepção caiu. Aos poucos foi ficando leve e não sentia mais nada abaixo de si, tampouco acima. Perdera a noção de gravidade. Tentou abrir os olhos, gritar, mas seu corpo não respondeu a seus comandos, durante um bom tempo.
Por fim, despertara. Estava deitado em uma rua estranha. Não conhecia aquele lugar. Vestia um enorme casaco por cima de um traje social e próximo ao local onde estava com a cabeça deitada, havia um chapéu, que vestiu instantaneamente. Ele nunca havia usado nada igual. Esfregou os olhos e notou que parecia estar em um filme antigo, ambientado nos anos 30 ou 40.