Augusto olhava a tudo atônico.
Demorou a perceber que estava em um quarto, pois as paredes, iluminadas, ofuscavam
sua visão. Um teto abobadado exibia o sol do meio-dia, enfeitando o céu
imponente. Estava cercado da luz de um dia abençoado. O único móvel ali era a
cama, ricamente esculpida no mesmo material do resto do cômodo, bem como as
portas, que localizou pelas maçanetas de ouro. Ele estava em um palácio
cristalino.
Percebeu-se nu, mas ao pensar em se
vestir, um dos lençóis que o envolvia pareceu tomar vida, transformando-se em
um luxuoso traje real dourado.
Saiu do quarto, simplesmente sem
conseguir formular qualquer pensamento. Deparou-se com um longo corredor, cujas
paredes laterais eram igualmente a luminosidade de um cenário ardente aos
olhos. Ao final, um velho anão, vestido com uma túnica dourada, curvou-se em
reverência. Ele o aguardava com uma enorme taça, contendo um líquido da
supracitada cor.
- Saudoso Príncipe. Teve um bom repouso?
O pequenino possuía um olhar bondoso
e calmante, o que evitou uma enxurrada de perguntas por parte de Augusto.
- Tive sim.
- Banhe-se com luz líquida, meu
senhor.
Augusto, um pouco hesitante, enfiou
as mãos dentro da taça. O líquido, ao entrar em contato com sua pele, emergiu
do recipiente, envolvendo todo o corpo do rapaz, de forma que este tornara-se
um ser de luz. Por alguns instantes, não conseguia enxergar, mas logo tudo
voltara ao normal, porém, ele sentia um vigor indescritível.
O pequeno ser agora o olhava com um
misto de devoção e ansiedade.
- Quer me dizer algo? – perguntou
Augusto.
- Deseja ficar onde está, querido Príncipe?
- Aonde eu deveria ir?
- Aonde quiser, mestre. Mas devo
lembrá-lo de que o banquete será servido.
- Ah, sim, então vamos.
O ser adiantou-se, conduzindo
Augusto a um amplo salão, com colunas douradas e a mesma luminosidade dos
outros cômodos. Ali, encontravam-se cerca de milhares de seres em igual
aparência à do anão: os mesmos traços faciais, a mesma altura, a mesma
vestimenta. Eram todos idênticos. A população curvou-se à presença do príncipe.
“Não acredito que tudo isso é para
mim! Mas onde diabos estou? Quem são eles?”
O primeiro anão, que encontrara o
rapaz próximo a seus aposentos, anunciou:
- É com muita honra que recebemos o
Príncipe da Luz para seu banquete.
- Viva o Príncipe da Luz – entoou a
multidão em uníssono.
“Príncipe da Luz?”, repetiu Augusto
em pensamento, olhando para mesa. Nela, estavam dispostas bandejas diversas,
todas contendo o mesmo: luz dourada. “Que gosto deve ter isso?”
Sentou-se e ficou a divagar sobre
tudo que via, mas foi interrompido pelo primeiro anão:
- Falta-lhe algo, magnânimo Regente?
- Sim, eu gostaria de saber em que
dia estamos.
- Dia? Perdão, Sua Alteza, mas não
compreendo.
- Dia! Quando o sol se põe e a noite
chega, passam-se algumas horas e à meia-noite começa um novo dia! – Augusto
explicava aquilo com certa irritação, mas logo arrependeu-se, ao notar que
todos temiam e se assustavam com sua súbita alteração de humor.
- Não sabemos do que Vossa Alteza
fala – respondeu submissamente o primeiro anão. – É alguma profecia?
- Profecia?
De repente, um leve tremor começou a
invadir o palácio. Os anões prostraram-se no chão, gemendo, o que irritou mais
ainda Augusto. Ao mesmo tempo, um som de corneta invadira o ambiente.
- O que está havendo aqui?
Levantem-se! – ordenou o príncipe, furioso.
Sua ordem fora obedecida por todos,
embora o semblante geral fosse de pânico.
- Que barulho é esse?
O primeiro anão apressou-se a
responder:
- É alguém de fora, meu glorioso.
Em meio às luzes, surgira um homem,
com roupas de viajante à moda clássica, em tom carmim. Não era anão, como os
outros, tampouco velho. Muito pelo contrário, era jovem e atraente, com lindos
cabelos ruivos caídos aos ombros. Fez uma reverência a Augusto, que apenas o
fitava, notando então que o estranho tremor cessara.
- Caro Príncipe, sou o Mensageiro
Vermelho, aquele que traz notícias do mundo de fora, do desconhecido por vós,
do além das paredes de diamante.
- Ele é um mentiroso... – gritou uma
voz entre a multidão.
- Um patife! – alguém completou.
- Silêncio! – determinou Augusto e
em um instante, o silêncio tornara-se tão claro quanto o ambiente. – Diga-me,
Mensageiro Vermelho, o que ocorre do lado de fora?
- A iminência do caos, Alteza.
- Caos? – perguntou o príncipe,
quase indiferente.
- Sim, o caos.
- Pode me explicar melhor?
- O reino vizinho está agora sob o
comando do dragão das trevas.
“Estou em um lugar onde o sol nunca
se pôs, no meio desses seres esquisitos, e lá fora há um dragão espalhando o
terror? Então dessa vez eu não apenas viajei no tempo... Não estou no mundo
real. Pareço ter entrado em algum conto de fadas... Isso que é a loucura? Sim,
hoje eu sei o que é ser louco...”
- Perdão, Alteza, mas parece que não
me ouve – observou o mensageiro, fazendo Augusto retornar de seus pensamentos.
- Sim, você dizia?
- Que o Dragão apossou-se do Palácio
da Noite Estrelada, mantendo lá o jovem Príncipe como refém. Os habitantes
estão refugiados. O medo instaurou-se sobre a cabeça de todos nós. Nós sabemos
que o surgimento dragão é o prenúncio do fim das estrelas e...
O mensageiro ainda dissera muitas
coisas, mas a última palavra que Augusto ouvira foi refém.
“É ele. Só pode ser ele, de novo.”
- Quem é o Príncipe do Palácio da
Noite Estrelada? – perguntou o jovem, ao notar que o mensageiro o aguardava em
silêncio.
- Sua Alteza, o Príncipe Diego.
- Pois diga a todos os aflitos que eu,
Augusto, o Príncipe da Luz, derrotarei o Dragão das Trevas, salvarei o Príncipe
Diego e trarei a paz novamente a todos que vivem sob a Noite Estrelada –
declamou excitadíssimo Augusto, à vista da possibilidade de, não apenas estar
novamente com Diego, mas de tornar-se um herói, ainda que não fizesse ideia de
como enfrentaria e derrotaria um dragão.
- Mestre, ele é louco, fala de um
mundo que não existe – cochichou–lhe o primeiro anão.
- Você não sabe o que diz, anão.
- Mas como viveremos sem nosso Príncipe?
- Eu voltarei, com o Príncipe Diego
são e salvo. E quando eu voltar... – Augusto parou por um instante, para
refletir sobre o quão absurdo era o que estava dizendo, mas não chegou a
conclusão alguma. – E quando eu voltar, eu e o outro príncipe governaremos
juntos o lado de fora e o lado de dentro, e os dias passarão a ser alternados
pelas noites.
Ao terminar a profecia, Augusto
sentia-se não apenas como um príncipe, um herói. Havia se tornado um deus.
- Fico feliz em saber que posso
contar com sua ajuda, Alteza – falou o Mensageiro Vermelho.
- Irei agora mesmo. Podes me guiar?
- Com certeza, caro Príncipe.
O mensageiro virou-se e caminhou em
direção aonde aparecera. Os anões estavam atônitos, com o desespero estampado.
Vosso líder os deixaria ali, partindo em busca de aventura.
O príncipe, sem mais nada dizer,
seguiu o homem de vermelho, enquanto escutava lamentos e murmúrios de seus
súditos. O mensageiro andava à frente e Augusto, a princípio, não conseguia
enxergar aonde estava indo.
- É muito longe daqui? – perguntou o
rapaz, fazendo com que o mensageiro parasse de caminhar e se voltasse ao
príncipe. Pela primeira vez, Augusto pode prestar atenção no rosto do homem.
Tinha olhos amarelados como de um felino e a expressão enigmática.
- Isso depende de você, Príncipe.
- Como assim?
- Sua Alteza é o Senhor da Luz...
O mensageiro virou-se novamente e
prosseguiu sua caminhada, deixando Augusto atordoado com suas palavras.
“Depende de mim? Como? Eu, Senhor da
Luz... O palácio... Se eu sou o Senhor da Luz... significa que eu fiz isso!”
- Mensageiro, pare!
- Pois não, Alteza.
- Há necessidade de andarmos?
O mensageiro sorriu.
- Parece que entendeu.
- Entendi... Eu acho.
- Luz é consciência, Príncipe. À
medida em que abdicamos da consciência, a luz diminui.
- E mergulhamos no desconhecido?
- Você aprendeu rápido, Alteza.
- Mas como abdico da minha
consciência? Como faço o palácio desaparecer?
- O que não se pode ter do
desconhecido?
Augusto refletiu por um instante e
arriscou:
- Não posso ter... controle.
- E o príncipe está disposto a, pela
primeira vez, perder total controle do que o rodeia?
A pergunta atingiu Augusto como um
golpe. De repente, deu-se conta de como sempre fora controlador.
- Não sei, Mensageiro... Mas é
preciso, não?
- Tudo poderá lhe acontecer.
- Estou disposto.
- Então feche os olhos.
Augusto seguiu a ordem do
mensageiro. Como em um passe de mágica, o piso frio e seco deu lugar a um solo
úmido. Ele sentiu que a luminosidade sumira através de suas pálpebras. O vento
surgira, cantando uma melodia de solidão. Do alto, um impetuoso trovão assustou
o rapaz, fazendo com que ele abrisse os olhos.
O jovem estava coberto pela
escuridão. Não chovia, mas nuvens irritadiças pareciam brigar no céu,
despejando relâmpagos por todos os lados. Somente durante os clarões que se
formavam sobre sua cabeça, ele conseguia enxergar o tenebroso vale, com árvores
secas, casebres nitidamente abandonados e morcegos que voavam ao seu redor.
Logo adiante, havia uma espada fincada no solo.
- Use se quiser – a voz do Mensageiro Vermelho ecoou em sua mente, mas
Augusto não podia mais vê-lo.
Uma nova trovoada relevou ao rapaz o
palácio de pedra e o dragão, que sobrevoava a construção.
“Lá está Diego.”
Augusto retirou a espada do solo e
empunhou-a aos céus.
- Diego, eu vou te salvar! – berrou,
heroicamente.
Correu em direção ao palácio, ainda
guiado pelos relâmpagos. O gigantesco portão, de porta maciça, estava
entreaberto.
“Parece que isso está abandonado...”
Mas o local estava iluminado por
candelabros. Nada mais ali havia, além de uma escada circular.
- Diego!
Subiu correndo os degraus, erguendo
a espada. Estava nervosíssimo, suando frio, temendo o confronto do dragão. Ao
final da escada, encontrou-se ao meio de um corredor. À sua esquerda, podia ver
uma sacada da construção, onde o dragão passeava. Na outra direção, um cômodo
que emanava uma fraca luz prateada.
Atraído pela luz, ele seguiu à
direita e ali estava Diego, vestido com roupas reais, na cor púrpura,
desacordado sobre uma cama. A abóboda do quarto mostrava o céu estrelado,
diferente do que o rapaz vira do lado de fora, iluminando a face do príncipe em
repouso. Augusto contemplou a face angelical de seu garoto.
“Isso é como um conto de fadas. Eu
devo beijá-lo, para que ele desperte.”
- Augusto...
Uma suave voz feminina surgiu do
alto, na forma de uma estrela que despencara do céu, e agora flutuava sobre os
dois.
- Quem... O que é você? – perguntou
Augusto.
- Sou Astréia.
- Que máximo! Estou falando com uma
estrela!
- Augusto, venha comigo...
- Para onde?
- Eu conheço seus desejos mais
íntimos e você corre perigo. Eu vim dos céus para te ajudar.
- Eu preciso salvar o Diego e...
- Você precisa se salvar de si
mesmo.
- Não fale bobagens! Há um dragão lá
fora que afugentou toda a população e fez com que o Diego adormecesse.
- E você não quer perder a
oportunidade de se tornar o herói...
- Eu sou o herói! É para isso que eu
estou aqui!
- Aqui onde, Augusto?
O jovem, sem resposta, explodiu:
- Não sei! Não sei onde eu tô, como
eu vim parar aqui!
- Guiado puramente pelo seu desejo.
- Isso não é verdade!
- Então deixe esse Diego adormecido
e volte comigo.
Augusto lembrou-se do momento em que
se desligara da realidade, durante o beijo dado no cinema. Sentiu um enorme
vazio. Aquilo já não era o suficiente.
- Pois bem, se fui guiado pelo meu
desejo, é aqui que quero ficar. Salvarei o Diego e reinarei. Não quero mais a
vida medíocre de nadador. É pouco para mim.
- Como imaginei, Augusto... A
escolha foi sua.
Astréia sumiu diante dos olhos do
rapaz, mas o ambiente ainda era iluminado pelas demais estrelas. Ele olhou para
Diego, aproximando seus lábios para beijá-lo. Porém, pensou: “Primeiro preciso
matar o dragão. Essa é a ordem correta.”
- Diego, meu querido, aguente mais
um pouco. Acabarei com aquela besta e voltarei aqui quando todo o perigo tiver
cessado.
O Príncipe da Luz tocou o rosto do
Príncipe da Noite Estrelada e sentiu sua pele quente.
“Ele está vivo. Não há perigo em
deixá-lo aqui.”
Augusto correu pelo corredor, até
chegar à sacada onde estava o Dragão. Ali, o céu permanecia trevoso e com
nuvens furiosas.
- Ei, dragão maldito! Olha eu aqui!
Eu vim acabar com você.
Suas pernas cambaleavam. Ele temia o
confronto, mas estava ali, para concretizar seu ato heroico. Mas o Dragão, ao
contrário do que ele imaginara, comportou-se de forma dócil. Ao constatar a
presença do príncipe, a fera pousou delicadamente, chagando a fazer-lhe uma
reverência com o girafal pescoço.
- Não faça isso, seu idiota! –
berrou Augusto. – Nós temos que lutar!
Mas o Dragão permaneceu imóvel.
“Que bicho patife! Mas estou só aqui
e esta batalha vai ecoar aos quatro cantos desse mundo do jeito que eu contar.”
O Príncipe da Luz ergueu sua espada
e correu em direção ao dragão. Com apenas um golpe, perfurou-lhe o pescoço. Em
seguida, acertou onde acreditava ser o coração do animal. O sangue que jorrava
de suas feridas começou e pintar o céu, fazendo deste um lindo espetáculo
estelar. Um pouco de sangue manchou também as vestes de Augusto, e a cada gota
o rapaz tornava-se mais brilhante. Ele era um ser de luz. O Dragão dera seu
último suspiro e submissamente, deixou que seu corpo caísse desfalecido.
Triunfante, o príncipe, brilhando
como o sol voltou à sala onde Diego se encontrava.
“Meu querido, eu matei o Dragão e agora te darei um beijo.
Tenho certeza de que desta vez permanecerei aqui, pois este é meu lugar.”
Tocou os lábios do príncipe
desacordado e pode mais uma vez sentir seu hálito doce. Agarrou-lhe com força,
não querendo ser novamente transportado no especo e no tempo.
“Deu certo, eu continuo aqui”,
pensou, contemplando o jovem Diego que após alguns segundos, abrira os olhos.
“Esses olhos... Meu querido, agora
vamos ficar juntos.”
Diego olhou para Augusto, assustado,
e sentou-se vagarosamente.
- Quem é você?
- Sou o Príncipe da Luz e salvei
você, Príncipe da Noite Estrelada – respondeu Augusto heroicamente.
- Me salvou como e de quê? Eu estava
apenas dormindo...
- Não, caro príncipe. Estavas sob o
efeito de um poderoso feitiço. Mas eu te trouxe de volta à vida com um beijo.
Diego levou as mãos à boca, como
quem tenta encontrar vestígios do beijo.
- Você me beijou? – perguntou o
jovem, timidamente.
- Sim, como todo meu amor –
respondeu Augusto, fazendo-lhe uma reverência. – E matei o dragão que te
aprisionava.
- Dragão?
- Sim, aquele enorme dragão que
dominara o castelo. Eu o matei.
- Tiamat! – clamou Diego em
desespero, correndo em direção ao corredor e fazendo com que Augusto o
seguisse, confuso.
O Príncipe da Noite Estrelada
prostrou-se ante o corpo do animal, em total desespero.
- Tiamat! – vociferou ele, entre
lágrimas.
- Não entendo... – confessou
suavemente Augusto. – Por que choras pela morte dessa besta infernal?
Diego olhou-se com profundo ódio.
- Você matou meu dragão, seu
maldito!
- Mas ele é seu dragão?
Diego avançou em direção ao Príncipe
da Luz, revelando entre suas vestes um punhal prateado. E quando o Príncipe da
Luz se deu conta, a arma já estava fincada em seu peito.
Sua última visão fora a do próprio
sangue esparramado misturando-se ao do animal. Antes de morrer, escutou a voz
triunfante e diabólica do Mensageiro Vermelho.
Que o dragão e Augusto descansem em
paz.